« Milagres de Silvestre | Main | Crônicas de um pescador Ensinos do velho do mar - Tuta Moraes »

O dia que não veio - Fabinho Silva

Aquela moça que levantou cedo e tomou uma garrafinha de iogurte light por desjejum, tinha uma intenção tão firme nos olhos que seria de crer impossível demovê-la.
Seu objetivo era mudar o mundo, nada mais. Levava consigo um livro, supostamente mágico, cheio de presságios certeiros pras pessoas.
Faltaria ao trabalho hoje, o que não era problema, afinal não teria mais necessidade de emprego amanhã.
Mas na rua, ainda no meio-escuro da manhã, andou um bocado e não encontrou ninguém. Nem carros nem ônibus, nada de gente. Estavam todos ainda dentro de casa, supôs, pois as luzes das casas estavam acesas.
Espiou uma janelinha dum sobrado ali perto, e viu toda uma família reunida em frente à televisão. No sobrado vizinho, havia um casal de idosos, também na frente da TV. E, por todo o bairro, todos miravam a telinha com a expressão mais séria do mundo.
Ainda faltavam quinze minutos para as seis da manhã. A moça chamou à porta dos idosos:
- Bom dia... posso falar com a senhora?
- Minha filha, que você está fazendo aí fora? Perdeu o juízo?
- Aham, senhora... está uma manhã tão agradável, estou dando uma caminhada... mas parece que é só eu, não? Todo mundo vendo TV...
- Então você não está sabendo?
- Do quê?
- Da transmissão.
- Hã...não...
- Vai ser às 6:00h. Ninguém deveria sair de casa. Deu no jornal ontem! Você não viu? Onde anda a cabeça desses jovens, meu Deus.
- Nos últimos dias estive ocupada lendo este livro aqui, aliás maravilhoso, que nem lembrei de ligar a TV...
- Pois não deveria ter perdido tempo com isso... a vida real está aqui na TV, filha... venha, entre, pelo amor de Deus...
A moça entrou. Na tela, a imagem fixa num ponto do céu. Um contador regressivo mostrava o tempo restante para seis da manhã. Uma voz comentava algo sobre uma reunião de líderes mundias.
- O que vai acontecer às seis da manhã? - perguntou, afinal.
A idosa suspirou, um ar desolado:
- Anunciaram o fim do mundo, filha. Disseram que vai cair uma coisa aí do céu, e não vai sobrar nada. O que era mesmo, Antônio?
O idoso resmungou algo que ela não entendeu. Na TV, apareceu a logomarca de um famoso Banco.
- Mas, assim, de uma hora pra outra? Até ontem, tudo parecia tão bem.
- Ah, não tava assim tão bem não, filha... a TV tava mostrando tudo, tudo. A coisa tava feia, dava todo dia no jornal. Mais cedo ou tarde, isso ia acabar acontecendo. Olha lá! a banda da Ivete vai começar a tocar a música do fim do mundo.
- Senhora... se vai acabar mesmo, então por que não saímos e aproveitemos o último nascer do sol?
Ela disse isso, mas notou que os idosos já não a ouviam mais. A televisão dizia que o mundo ia acabar, e ia transmitir ao vivo, patrocínio da coca-cola, com 45 câmeras exclusivas que pegariam o melhor ângulo do fim. Fixos na tela, seus olhos foram iluminados por um brilho intenso. Ela olhou pra rua, e ainda estava escuro. Eram seis em ponto.
E esse foi o fim: o brilho da tela da TV roubou a vida dos olhos das pessoas, restando apenas seus corpos secos sentados nos vários sofás das muitas casas. Lá fora, nascia o sol, devagar, vermelho, lindo como nunca.
Saindo pra rua ela encontrou outros alienados com seus livros em baixo do braço. Pessoas muito vivas, por sinal. Homens, mulheres, jovens, idosos, crianças, limpos e sujos, feios e bonitos. Pois o fim do mundo, quando veio, não veio para todos.

 

Reader Comments (1)

Nossa, sensacional!! Como poucas palavras e muita emoção!
Tem continuação, ou melhor, história anterior!? Diga que sim!

Um grande abraço!!!

Agosto 14, 2009 | Unregistered Commenteralesson

PostPost a New Comment

Enter your information below to add a new comment.

My response is on my own website »
Author Email (optional):
Author URL (optional):
Post:
 
Some HTML allowed: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <code> <em> <i> <strike> <strong>